De onde venho todo mundo se conhece, costumava ser cumprimentada pelas pessoas ao passear nas ruas, costumava andar a qualquer hora sem medo e sem preocupação alguma. A cidade era pacata e geralmente as pessoas não tinham o que fazer ou falar, devido a isso, vida alheia ou qualquer outra banalidade virava motivo de fofoca.
Se você fosse dono de comportamento considerado fora do padrão, se tivesse idéias diferentes do comum, se fizesse o que lhe desse na telha e algum bisbilhoteiro o flagrasse, todos falariam da sua vida e você seria sumariamente condenado. Quando acontecia algum fato de violência ou qualquer coisa que pudesse vitimar alguém, a cidade logo ficava sabendo e o suspeito passava por um julgamento que vem mais rápido que o da justiça, o da sociedade. Quem pensava em cometer um delito ou fugir dos padrões considerados normais, deveria antes tomar bastante cuidado para não ser pego, como quase não aconteciam casos assim, ele certamente seria lembrado por muito tempo e serviria de assunto nas tardes de marasmo, nas rodas de cadeira colocadas nas calçadas. Além de se preocupar com a própria consciência, seria torturado pelo eterno hábito de fofocar dos populares e isso era terrível pra mim, que não tinha um comportamento de monge e era obrigada a agüentar que minha vida fosse comentada por aí.
Mas hoje em dia, morando numa capital violenta, senti uma enorme saudade do meu lugarzinho pequeno, de como eu me sentia segura apesar das línguas viperinas que me faziam de alvo. Reclamo sempre dessa mania que as pessoas têm de ficar debatendo sobre o que não lhe cabe, se intrometendo na vida alheia, era isso o que mais me irritava na cidadezinha. Já aqui, no meio dessa multidão toda que caminha a esmo, sou mais uma anônima, e isso me fazia bem até hoje.
Acostumada com a tranqüilidade de lugar pequeno, nunca me preocupei com a violência e mesmo morando hoje numa cidade grande, ainda trago comigo os velhos hábitos, como o de andar de noite pelo meu bairro. Nunca tinha me acontecido nada, lá a única tormenta eram os olhos atentos , estes me incomodavam, mas não faziam com que eu mudasse: sempre fiz o que queria fazer apesar dos olhares. Hoje, ao voltar de uma livraria perto de casa com um amigo, fomos abordados por um grupo de cinco rapazes. Eles traziam consigo algum objeto cortante que na hora do pânico não conseguimos identificar, colocaram a lâmina na cintura de meu amigo e enquanto vasculhavam seus bolsos faziam muito barulho e confusão. Tudo isso acontecia numa movimentada avenida, ao lado de um ponto de ônibus, muita gente parada e muita gente andando e pela primeira vez me senti órfã dos olhares dos outros. Ninguém veio ao nosso socorro, não apareceu nenhum observador para dar detalhes da cena, pra nos ajudar a identificar os infratores e condená-los pelo crime. Em meio a multidão ninguém nos olhava, éramos sós num lugar gigante e populoso.
O homem deveria aprender a ver, a perceber, a dar cabo do que realmente importa. Se lhe sobra tempo, observa só pra condenar, se lhe falta tempo, ignora a presença do outro. Quando não acontece nada, qualquer banalidade toma ares de importante, isso me incomoda. Na cidade pequena, diante da mediocridade da vida das pessoas, o trivial era entretenimento, olhar e falar mal dos outros era divertido, julgar o que se passava em volta era uma ocupação. Já quando acontece tudo de uma só vez, não damos importância ao outro, nos enchemos tanto com uma quantidade absurda de tarefas e informações que as coisas passam a nossa volta e nem nos damos conta. Assaltamos o tempo, o sentimento, o dinheiro porque não tem ninguém observando, precisamos tomar subitamente pra que parem e nos olhem. Aqui, na capital, na correria pelo capital, vitima e bandido não são assistidos, não há tempo pra prestar solidariedade a nenhum dos dois.
Continuarei com os velhos hábitos… Nunca deixei de fazer o que me deixava feliz na minha antiga cidade pra evitar comentários, não vou deixar de andar por aí no meu novo lugar por conta do descaso com o próximo, da falta de humanidade. É errado deixar de viver pra evitar ser julgado, é injusto deixar de viver pra não ser assaltado. Vítima das más línguas ou dos maus atos não vou me intimidar. Minha reação vai ser não mudar, continuar. Mas eu quase que não consigo ficar numa cidade sem viver contrariada.