Desencontros e Encontros

Sou a dualidade em pessoa. Não é incongruência ou fraqueza de idéias, tenho certeza das coisas que sinto, e procuro conciliar os sentimentos ambíguos. Há em mim, características que se opõem, mas coexistem. A habilidade de observar o mundo por dois lados é um aspecto do universo feminino, principalmente depois que a mulher passou a agir como um ser pensante, onde aliou sensibilidade e inteligência. Eu pareço ter aguçado ainda mais esta peculiaridade. Que nem uma adolescente que vive em conflitos, eu vivo em guerra com a emoção e a razão. Sou consciente e racional, procuro a clareza das coisas, gosto de explicação pra tudo. Ao mesmo tempo, sou idealista e romântica, acredito em utopias, vivo com emoções a flor da pele. Se por vezes sou fria, critica e direta, por outras sou maleável, enfeito e adoço. Tenho segurança ao me expressar e incerteza nas relações. Odeio ser posta a prova, mas sou fã de uma discussão. Em situações novas, posso tornar-me extrovertida para perder timidez, disparo a máquina de falar pra disfarçar a insegurança.

Odeio opiniões formadas. Nossas convicções são geradas pelos momentos vividos. Não é que as promessas anteriores, as crenças, as juras de amor, tenham sido ditas de maneira falsa, não foram, sou sincera demais. Todavia, verdades de ontem podem não servir pro hoje. Costumo cumprir o que prometo e ser fiel às minhas crenças, mas não vou dizer que nunca tenha mudado de opinião. Dizem que sou contraditória. Porém, me acho mais complexa do que paradoxal. Não é por falta de personalidade que por vezes mudo alguns conceitos. É por aprendizado, vivência, evolução. Em essência, não mudo. Contudo, acredito que seja importante para o amadurecimento aceitar novas condições, ver o mundo com olhares cada vez mais amplos e claros. É bom aprender. Ser previsível e sempre sensato é sinal de que não se está vivendo. O passar do tempo, a lida com outras pessoas, as atividades realizadas, tudo isso nos empurra para mutações. Sou demasiadamente humana. Erro. Perco-me. E é dessa forma que aprendo. E me encontro.

Ideal

 

Não preciso de fortuna para ser feliz. Tenho um gosto complicado e por ser seletiva acabo me deparando com coisas caras. Posso me acostumar a ficar sem isso, ou me esforçar pra ter o que realmente me importar. Bem materiais não trarão minha alegria, aprendo a viver sem eles. Prefiro me abarrotar de boas idéias e conhecimento. Alimentar minha mente e alma são os maiores objetivos. Encher o bolso não me importa muito. Dinheiro vai me ser útil pra poder viver bem, nada de extravagâncias.

Preciso estar livre. Não quero uma profissão que me escravize. Tem que ser algo pra poder levar na mochila. Uma coisa que eu possa fazer em qualquer parte do planeta. Adoraria viajar muito, conhecer lugares, culturas e pessoas. Ver como as distancias podem ser encurtadas com o conhecimento. Assimilar o que me for possível, aprender ao menos parte do que me for apresentado pelo mundo. Sou curiosa. Amante do saber. A pior resposta que poderia dar a uma pessoa é ‘- eu não sei’. Entendo que por mais que me esforce nunca vou poder explicar tudo, mas se tem algo que me frustra é o não saber. Odeio burrice, principalmente a minha. Meu perfeccionismo cobra de mim, pede por esforço e inteligência.

Quero uma casa no campo. Sim, que nem na música. Um lugar onde eu possa acordar ouvindo barulhos de pássaros em vez de buzinas frenéticas. Vou sair andando pela casa sem me preocupar com as janelas abertas e se os vizinhos vão observar através delas. Quero poder receber meus amigos e festejar a presença deles. Irei respirar o verde, não a poluição dessa selva de pedra. Verei só quem verdadeiramente me importa. Nada de relações sociais forçadas. Não preciso de uma mansão, a casa deve ter o tamanho ideal, sendo confortável e aconchegante. Na parede os quadros das crianças, das que eu tiver e das que agregarei como minhas, já que filhos de amigos serão como meus filhos. No quintal arvores, desejo andar descalço sentindo o passar da grama por entre os dedos. Quero música ecoando, a dos meus discos e a da natureza. Preciso do perfume sendo exalado, dos cheiros trazidos pelo vento, e daqueles emanados pelos temperos e pessoas. Espero sentir os toques, dos amigos e amores. Anseio por estar cercada de carinho e proteção, cuidando e sendo cuidada. Vou ler no céu o dia e a noite, ler nas plantas as estações indo e vindo, ler nas criaturas os sentimentos. Coisas que podem ser vistas nos livros, mas que só são entendidas quando vividas.

Faço caricaturas de um mundo ideal, mas posso acrescentar outros ingredientes nessa idéia. Ela ainda não está pronta. Merece ser cultivada, amadurecida, e desejada pra que um dia eu consiga colocá-la em pratica. Em resumo, diria que eu quero sempre estar em contato, tanto com a natureza quanto com as pessoas. Ambiciono poder unir a alegria e a pureza da infância, com a sapiência da velhice, ser uma mulher-menina. Não quero crescer de todo, adultos são sóbrios demais, são falsos e sofrem de um terrível mal, a ausência de sonhos.

Carinho

Estar só é bom apenas em alguns momentos. Não é sempre que prefiro estar assim. Se não fico rodeada de amigos me deprimo. Amigos são uma família que escolhi. São eles que massageiam minha alma, me enchem de alegria. Somos parecidos. É como se em algumas vezes funcionassem como reflexo do meu eu. Com eles percebo que não sou anormal. São minha tribo. Combinamos em bastante coisa. Amo meus amigos e nossos momentos regados a livros, filmes e música.

Delicioso receber telefonemas de amigos queridos. Aliás, amo receber e dar telefonemas, amo estar em contato. Tem coisa mais encantadora e charmosa quanto receber uma carta? É raro, mas adoro quando as recebo. Elas precisam ser escritas caprichosamente, colocadas em um envelope, enviadas, enfim, dão certo trabalho. Há mais carinho e atenção dispensados em uma carta, do que na fria internet.

Gosto de carinho. Muito mais do que aparento gostar. Sou tímida, por isso raramente me mostro. Em meu mundo só entra quem tiver suavidade e destreza. Sou um bicho arisco, misteriosa e de difícil convivência. Sei que não sou fácil. Por saber disso, amo ainda mais aqueles que estão sempre comigo.

As pessoas não se tocam mais. Confundem toque com algo que não é amizade. Relações precisam de troca de carinho. Não há necessidade de um envolvimento que não seja de amizade pra isso. Eu afago meus amigos, eles me fazem carinho e é sem segundas intenções. Ah, o abraço! Sou fã de abraço. É neles que noto a sinceridade. Da pra sentir a energia da outra pessoa durante o abraço. Funciona mais do que palavras. Nas horas felizes, são excelentes pra comemorar. Nas horas de tristeza, acalentam perfeitamente. Colo é melhor que palavras pra transmitir alívio. Viro a pessoa mais calma do mundo ao receber um cafuné, posso até dormir. Diria ainda que sonho acordada enquanto mechem em meus cabelos. Sonho acordada quando as pessoas mechem comigo.

Da Solidão

Gosto dos meus momentos a sós. É minha necessária solidão. Desenvolvi uma pratica ao longo dos anos, tenho a mania de me isolar em algum momento do dia pra ficar com meus pensamentos. Sempre foi fácil conseguir esses momentos. Acho até que os desenvolvi por serem uma alternativa. Aos quatro anos comecei a morar com meus avôs em uma casa gigante, e na maior parte do tempo, vazia. Quando não tinha crianças ou adultos eu me isolava, ficava com os livros e pensamentos. Aprendi a ser só. Tive que aprender. Às vezes é bom sair do meio da multidão pra refletir. É nessas horas que me vem idéias criativas, que penso em escrever, que vejo o que está bom e ruim na vida, que tomo algumas decisões. Sinto-me bem pondo uma música enquanto ando pela casa desocupada, procurando algo com que me distrair. Têm vezes em que me saio melhor sozinha, sem ninguém expiando. Por ser insegura, me sinto bem desempenhando certas tarefas sem a presença de outras pessoas. Não gosto de escrever, de cozinhar e de ler com alguém perto. Distancio-me dos outros para usar o telefone. Perco-me toda ao volante se tiver alguém me olhando. Sou estranha e medrosa, cheia de timidez, anti-social. Distancio-me porque se distanciaram de mim em outros tempos. Eu precisei aprender a ser só.

Esperei durante toda a infância e boa parte da adolescência uma oportunidade pra morar com meus pais. Sonhei com casa, imaginei um lar. Por mais que eles batalhassem pra que morássemos juntos, na única oportunidade que tivemos, veio a realidade. Nua e crua. Depois de um tempo entendi que era melhor que ficasse longe mesmo. Não ia mais conseguir conviver com ordens de pais. – Vai tomar banho. – Vá comer. – Escove os dentes. Peraí, né? Eu sei me virar sozinha. Monto meus horários. Resolvo meus problemas. Tive que aprender, não foi? Não por culpa deles. Eles se esforçaram. Fazem tudo por mim, são pais excelentes. Mas entendi que é melhor não esperar pelo outro. Expectativas não atendidas frustram.

Tenho medo da solidão. Morro de medo de me apegar e ter que perder. Solidão a sós não é nada. Solidão a dois é o que me mata. Ter e perder dói mais. Se prender às pessoas e vê-las partir machuca. Susto, medo, trauma. Aprendi a ser só por pânico de ficar sozinha depois de conhecer a cumplicidade.

Imaginação

Imagem gravada na memória

Salta da mente

Arrepia a pele

Incendeia o corpo

Dentes mordem

Lábios umedecidos

De lembranças

Boca…

Saudosa salivante

Desejando os grandes

Lábios úmidos.

 

O Sol Há de Nascer

 

Nossas noites são tão férteis

E a madrugada está grávida

Há tanto sol pra parir…

Tem uma barriga crescendo

De sentimentos

Alimentada por um cordão umbilical

De desejos

 

Nossas noites a sós

Estão contadas

 

Grávida de muitos sonhos

Essa escura e fria madrugada

Vai dar a luz

A dias felizes

E nossos.

E se…

 

E se eu te olhasse… Você sentiria vergonha? Não lançaria um olhar qualquer. Faria aquele olhar que despe, que corre toda a superfície da pele, que penetra.

 

E se eu te tocasse… Você teria pudor? Não seria um toque pueril. Seria daqueles que passeiam, que percorrem todo o corpo, que transpõem e adentram na alma.

E se eu te beijasse… Você ofereceria restrição? Pois não daria um beijo sutil. Daria os beijos de desejo, semelhante aos de saudades, aos de encontros e despedidas, que fazem estremecer por completo.

E se eu te mordesse… Sentiria dor ou prazer? Medo ou desejo? Mordidas de leve, roçar de lábios, o passar da língua… Isso me atiçaria, viu? Até que eu te mordesse com uma força doce, pra deixar marcas que não torturam. Marcas de tesão.

E se eu te vendasse… Você se soltaria? Um sentido oculto, todos os outros acentuados… Olhar-te-ia sem que me notasses [terias só a curiosidade de saber em que lugar do teu corpo meu olho repousa e se inquieta com o que vê]. Tocar-te-ia sem que visses meus movimentos [só saberias da posição das minhas mãos quando elas, quentes e trêmulas, encontrassem a tua pele macia]. Beijar-te-ia gostosamente [a minha boca sentindo a tua boca e desejosa pelo todo, não se contentaria. Iria procurar os seus esconderijos].

E se… E se meu corpo se misturasse com o seu? Mãos em sintonia, pés entrelaçados, e um calor… Ouvidos clamando por teus sons. Seu cheiro… E se eu quisesse o teu perfume e cobiçasse o teu sabor? Eu te guiaria com ordens e você me atenderia? Não seriam ordens pra te fazer menor, seriam pra deixar o desejo e a volúpia te dominar. Ordens pra conduzir as vontades de mim para ti. Permitirias?

E se… Se eu pedir o que o meu desejo quiser, desde que respeite também as suas vontades, sei que a resposta vai ser sim. Ainda bem.

Um tiro.

 

No meio da madrugada, fez-se o estopim, apertara o gatilho. O projétil foi fazendo o trajeto sem desvios e barreiras. Nem deu tempo de ver o caminho e o tempo do percurso. Em seu interior, uma explosão. Acertou em cheio o peito. Ela foi tomada pelo ardor do golpe cuidadoso. Uma emoção a invadia. De repente, um clarão.  O filme de sua vida passando em sua cabeça e ela se perguntando o que tinha feito durante todo aquele tempo. Não havia enxergado o que agora se passava diante dos seus olhos. Ah, a vida assumia uma importância tão grande nesse momento. Dava pra sentir o sangue correndo nas veias. Os cheiros se tornavam mais intensos. Os gostos… Todas as sensações eram mais perceptíveis e ela foi se deliciando com os seus últimos momentos de solidão em vida. Seu corpo, que fora tomado por um ritmo acelerado e pelo suor, aos poucos ia se acalmando. Estava serenando. E lá vinha a doce morte. Foi atravessando de súbito a passagem, divisando um horizonte novo. Havia luz. Em seus ouvidos não soavam mais os ecos do mundo. Eram outros sons. Diferentes de qualquer música já ouvida. Havia colorido em tudo. Seria aquilo o céu? Sim, parecia mesmo o paraíso. E foi assim, depois de um tiro no peito, que ela morreu de amor. 

 

 

Não, isso não é a historia de uma pessoa que se matou por conta de um amor. Também não é o registro de um assassinato. A personagem não é vitima. Essa é a historia da gama de sensações que ocorrem enquanto se cai de amores por uma determinada criatura. É como um tiro no peito, o ataque fulminante de um alguém muito bandido. (Risos…) Ah, e que delicia as “doces mortes” que isso acaba proporcionando… A pessoa fica “mortinha” e em qualquer lugar bem parecido com o paraíso.

Me fita

Me fita, me enfeitiça e me da uma fita.
Fita pra que eu possa perder a timidez.
Fita pra se esconder da luz.
Fita pra vendar os olhos.
Me fita pra me amarrar num olhar. 
Me da uma fita pra eu te amarrar.
Fita pra soltar amarras e tabus.
Fita pra satisfazer desejos e disvendar delícias.
Fita mágica liberadora de sonhos.

 

 

 

Em ti

 

Ei, eu te vi

Como nunca tinha visto

Como ninguém ousou ver

Te vi

E entendi

Que visão melhor não há

Vi  e me reconheci

Dentro de ti

Me embeveci com o que vi

Senti o que jamais senti

 

Ei, eu me mostrei

Como nunca tinha feito

Como ninguém ousou ver

Me vi

E entendi

Que essa visão é o que há

Me mostrei e me reconheci

Me esclareci dentro de ti

Senti o que jamais senti

 

Sem ti

jamais

Porque te vi

E me mostrei demais

Me esclareci

Em ti

Sexuais apenas, sem prefixos!

    Não entendo pra que essa divisão entre opção sexual  a e b. E por acaso existe uma criatura totalmente hetero ou totalmente gay? Não mesmo!  Seria impossível se apaixonar por uma pessoa do mesmo sexo apesar de não se considerar homo? Não! O ser humano é sociável, apaixonável e “sexuavel”. Enquadrá-lo numa categoria é deprimente, pura convenção. Definir é limitar. Somos sexuais , nada de homos e heteros, sexuais apenas, sem prefixos.
    Sentimos desejos por traços, gestos, cheiros, formas e por aí vai, pra isso geralmente temos uma preferência, algo que nos chama mais atenção. Já paixão, interesses e afinidades não se limitam a gênero. Pra me conquistar tem que seduzir primeiro minha mente, com inteligência, doçura, o corpo é uma segunda parte, vem depois. Nos apaixonamos pela personalidade, pela pessoa e alma, não por um pênis ou vagina.
    Se passo na rua e vejo um moreno, corpo atlético, gostosim… Arrepios! Da aquela vontade de agarrar e…, rs. Quando passo por um mulherão, olho pra ela e penso: muito bonita a moça! E vai parando por aí, não tenho grandes palpitações. Só que isso não quer dizer que esteja fechada pro feminino, que não possa porventura me relacionar com uma menina. Encaro tudo como uma questão de preferência, de gosto. Existem os que preferem o salgado ao doce e nem por isso deixam de sentir vontade de experimentar aquela sobremesa depois do almoço. Existem os que preferem os morenos aos branquinhos (meu caso) e mesmo assim não estão condicionados a nunca ficar com um loiritio. Me sinto sexualmente atraída por homens,  isso não me livrou de provar um pouquinho do outro lado.
    Ta na hora de pararmos com hipocrisia e tabus ein gente!?  Sexo foi feito pra dar prazer, portanto, merece ser solto, desinibido, sem preconceitos. Desde que seja tudo consensual não há motivos pra repressões. Basta se livrar de certas neuras pra entender que qualquer um é capaz de nos dar prazer. Não acredita? Fica de olho fechado sem imaginar nada e experimenta deixar alguém tocar teu corpo. Sentiu ou não sentiu prazer com o toque?

“Eu quase que não consigo ficar na cidade sem viver contrariado”

 

    De onde venho todo mundo se conhece, costumava ser cumprimentada pelas  pessoas ao passear nas ruas, costumava andar a qualquer hora sem medo e sem preocupação alguma. A cidade era pacata e geralmente as pessoas não tinham o que fazer ou falar, devido a isso, vida alheia ou qualquer outra banalidade virava motivo de fofoca.

    Se você fosse dono de comportamento considerado fora do padrão, se tivesse idéias diferentes do comum, se fizesse o que lhe desse na telha e algum bisbilhoteiro o flagrasse, todos falariam da sua vida e você seria sumariamente condenado. Quando acontecia algum fato de violência ou qualquer coisa que pudesse vitimar alguém,  a cidade logo ficava sabendo e o suspeito passava por um julgamento que vem mais rápido que o da justiça, o da sociedade. Quem pensava em cometer um delito ou fugir dos padrões considerados normais, deveria antes tomar bastante cuidado para não ser pego, como quase não aconteciam casos assim, ele certamente seria lembrado por muito tempo e serviria de assunto nas tardes de marasmo, nas  rodas de cadeira colocadas nas calçadas.  Além de se preocupar com a própria consciência, seria torturado pelo eterno hábito de fofocar dos populares e isso era terrível pra mim, que não tinha um comportamento de monge e era obrigada a agüentar que minha vida fosse comentada por aí.

    Mas hoje em dia, morando numa  capital violenta, senti uma enorme saudade do meu lugarzinho pequeno, de como eu me sentia segura apesar das línguas viperinas que me faziam de alvo. Reclamo sempre dessa mania que as pessoas têm de ficar debatendo sobre o que não lhe cabe, se intrometendo na vida alheia, era isso o que mais me irritava na cidadezinha. Já aqui, no meio dessa multidão toda que caminha a esmo,  sou mais uma anônima, e isso me fazia bem até hoje.

    Acostumada com a tranqüilidade de lugar pequeno, nunca me preocupei com a violência e mesmo morando hoje numa cidade grande, ainda trago comigo os velhos hábitos, como o de andar de noite pelo meu bairro. Nunca tinha me acontecido nada, lá a única tormenta eram os olhos atentos , estes me incomodavam, mas não faziam com que eu mudasse: sempre fiz o que queria fazer apesar dos olhares. Hoje, ao voltar de uma livraria perto de casa com um amigo, fomos abordados por um grupo de cinco rapazes. Eles traziam consigo algum objeto cortante que na hora do pânico não conseguimos identificar, colocaram a lâmina na cintura de meu amigo e enquanto vasculhavam seus bolsos faziam muito barulho e confusão. Tudo isso acontecia numa movimentada avenida, ao lado de um ponto de ônibus, muita gente parada e muita gente andando e pela primeira vez me senti órfã dos olhares dos outros. Ninguém veio ao nosso socorro, não apareceu nenhum observador para dar detalhes da cena, pra nos ajudar a identificar os infratores e condená-los pelo crime. Em meio a multidão ninguém nos olhava, éramos sós num lugar gigante e populoso.

    O homem deveria aprender a ver, a perceber, a dar cabo do que realmente importa. Se lhe sobra tempo, observa só pra condenar, se lhe falta tempo, ignora a presença do outro. Quando não acontece nada, qualquer banalidade toma ares de importante, isso me incomoda. Na cidade pequena, diante da mediocridade da vida das pessoas,  o trivial era entretenimento, olhar e falar mal dos outros era divertido, julgar  o que se passava em volta era uma ocupação. Já quando acontece tudo de uma só vez, não damos importância ao outro, nos enchemos tanto com uma quantidade absurda de tarefas e informações que as coisas passam a nossa volta e nem nos damos conta. Assaltamos o tempo, o sentimento, o dinheiro  porque não tem ninguém observando, precisamos tomar subitamente pra que parem e nos olhem. Aqui, na capital, na correria pelo capital, vitima e bandido não são assistidos, não há tempo pra prestar solidariedade a nenhum dos dois.

    Continuarei com os velhos hábitos… Nunca deixei de fazer o que me deixava feliz na minha antiga cidade pra evitar comentários, não vou deixar de andar por aí no meu novo lugar por conta do descaso com o próximo, da falta de humanidade. É errado deixar de viver pra evitar ser julgado, é injusto deixar de viver pra não ser assaltado. Vítima das más línguas ou dos maus atos não vou me intimidar. Minha reação vai ser não mudar, continuar. Mas eu quase que não consigo ficar numa cidade sem viver contrariada.

Coisas de Pele

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Na pele
o frio é cortante,
Me faz querer um outro corpo…
Pra aquecer.

Na pele
o fogo é alucinante,
Desejo uma outra pele…
Pra congelar.

Arrepio frio que incendeia,
Fogo que petrifica.
Na superfície fina e macia
da pele
o quente faz molhar,
umedecer.

O branco fica mais claro,
O que for escuro transparece.
Tato, cheiro e cor:
Sentidos!
Exalados!
Vistos!
Na pele

Sucos

Desejos contidos

Que emanam com a presença

E toque do oposto

Com seu gosto

Solto o meu gosto

E gosto

Do gosto que isso tem.

 

Eu gosto dos opostos

E do calor que eles tem

Da maneira como

Eles não me entendem

E tentam decifrar-me

Cegamente

Desvendado

Descobrindo

Penetrando

 

Transitando pelo meu mundo

Sem nem sempre alcançá-lo

E os abraço com carinho

Os enlaço

Mesmo com meu embaraço

Não me contenho

Relaxo

 

Me solto

E deixo me

Ser bebida

Liquefeita

Enlouquecida

 

Caleidoscópio

Tudo o que vejo

São horizontes mil,

Como um caleidoscópio

De infinitas cores,

Com sua magníficas formas.

Um mundo novo

Se mostrando diferente

A cada espiada curiosa

Do meu olhar.