Um tiro.

 

No meio da madrugada, fez-se o estopim, apertara o gatilho. O projétil foi fazendo o trajeto sem desvios e barreiras. Nem deu tempo de ver o caminho e o tempo do percurso. Em seu interior, uma explosão. Acertou em cheio o peito. Ela foi tomada pelo ardor do golpe cuidadoso. Uma emoção a invadia. De repente, um clarão.  O filme de sua vida passando em sua cabeça e ela se perguntando o que tinha feito durante todo aquele tempo. Não havia enxergado o que agora se passava diante dos seus olhos. Ah, a vida assumia uma importância tão grande nesse momento. Dava pra sentir o sangue correndo nas veias. Os cheiros se tornavam mais intensos. Os gostos… Todas as sensações eram mais perceptíveis e ela foi se deliciando com os seus últimos momentos de solidão em vida. Seu corpo, que fora tomado por um ritmo acelerado e pelo suor, aos poucos ia se acalmando. Estava serenando. E lá vinha a doce morte. Foi atravessando de súbito a passagem, divisando um horizonte novo. Havia luz. Em seus ouvidos não soavam mais os ecos do mundo. Eram outros sons. Diferentes de qualquer música já ouvida. Havia colorido em tudo. Seria aquilo o céu? Sim, parecia mesmo o paraíso. E foi assim, depois de um tiro no peito, que ela morreu de amor. 

 

 

Não, isso não é a historia de uma pessoa que se matou por conta de um amor. Também não é o registro de um assassinato. A personagem não é vitima. Essa é a historia da gama de sensações que ocorrem enquanto se cai de amores por uma determinada criatura. É como um tiro no peito, o ataque fulminante de um alguém muito bandido. (Risos…) Ah, e que delicia as “doces mortes” que isso acaba proporcionando… A pessoa fica “mortinha” e em qualquer lugar bem parecido com o paraíso.

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