Da Solidão

Gosto dos meus momentos a sós. É minha necessária solidão. Desenvolvi uma pratica ao longo dos anos, tenho a mania de me isolar em algum momento do dia pra ficar com meus pensamentos. Sempre foi fácil conseguir esses momentos. Acho até que os desenvolvi por serem uma alternativa. Aos quatro anos comecei a morar com meus avôs em uma casa gigante, e na maior parte do tempo, vazia. Quando não tinha crianças ou adultos eu me isolava, ficava com os livros e pensamentos. Aprendi a ser só. Tive que aprender. Às vezes é bom sair do meio da multidão pra refletir. É nessas horas que me vem idéias criativas, que penso em escrever, que vejo o que está bom e ruim na vida, que tomo algumas decisões. Sinto-me bem pondo uma música enquanto ando pela casa desocupada, procurando algo com que me distrair. Têm vezes em que me saio melhor sozinha, sem ninguém expiando. Por ser insegura, me sinto bem desempenhando certas tarefas sem a presença de outras pessoas. Não gosto de escrever, de cozinhar e de ler com alguém perto. Distancio-me dos outros para usar o telefone. Perco-me toda ao volante se tiver alguém me olhando. Sou estranha e medrosa, cheia de timidez, anti-social. Distancio-me porque se distanciaram de mim em outros tempos. Eu precisei aprender a ser só.

Esperei durante toda a infância e boa parte da adolescência uma oportunidade pra morar com meus pais. Sonhei com casa, imaginei um lar. Por mais que eles batalhassem pra que morássemos juntos, na única oportunidade que tivemos, veio a realidade. Nua e crua. Depois de um tempo entendi que era melhor que ficasse longe mesmo. Não ia mais conseguir conviver com ordens de pais. – Vai tomar banho. – Vá comer. – Escove os dentes. Peraí, né? Eu sei me virar sozinha. Monto meus horários. Resolvo meus problemas. Tive que aprender, não foi? Não por culpa deles. Eles se esforçaram. Fazem tudo por mim, são pais excelentes. Mas entendi que é melhor não esperar pelo outro. Expectativas não atendidas frustram.

Tenho medo da solidão. Morro de medo de me apegar e ter que perder. Solidão a sós não é nada. Solidão a dois é o que me mata. Ter e perder dói mais. Se prender às pessoas e vê-las partir machuca. Susto, medo, trauma. Aprendi a ser só por pânico de ficar sozinha depois de conhecer a cumplicidade.

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